A Polenta

A polenta que conhecemos surgiu no norte da Itália em consequência da descoberta da América, em 1492.

Começou a ser preparada três ou quatro décadas depois de Cristóvão Colombo regressar de sua viagem pioneira, levando sementes de produtos agrícolas desconhecidos, entre eles o milho. O navegador genovês alcançou o Novo Mundo procurando ouro e tesouros que não encontrou. Em compensação, achou um bem infinitamente mais precioso. Os astecas no México, os Maias da América Central, os Incas da Colômbia, que basearam suas civilizações na cultura do milho, já sabiam disso. Tanto que consideravam o milho um dom divino, venerando-o em liturgias religiosas. Na Europa, essa planta da família das gramíneas começou a ser cultivada pelos espanhóis da Andaluzia e dali se espalhou pelo resto do continente. Na Itália, chegou por Veneza, no início do século 16, obtendo sucesso instantâneo. Fácil de cultivar, crescendo rápido, saboroso e nutritivo, o milho matou a fome de sucessivas gerações. Seus grãos foram imediatamente socados e transformados em polenta. Alimento barato, virou comida de pobre.

Amarela ou branca, a polenta acabou conquistando o paladar dos ricos e se espalhando em todas as classes sociais. A fórmula original ou variações da receita foram perpetuadas pela arte. O poema épico Orlando Furioso, que o italiano Ludovico Ariosto escreveu no século 16, constitui um marco dessa ascensão cultural. O herói morre após se empanturrar com um tipo de polenta.

A paternidade da polenta é disputada pelas regiões do Friuli e Lombardia. A primeira apresenta documentos mostrando seu consumo de milho já em meados do século 16. A rival afirma que essas provas são insuficientes para atestar a primazia do prato. Os lombardos assinalam que Bergamo, uma de suas cidades, possui as mais antigas receitas italianas de polenta, datadas do século 17.

Um ponto igualmente discutido é o nome do prato. Para alguns, viria do grego poltos, sopa feita com trigo ou cevada. Outros sustentam derivar do latim pollen, flor de farinha. Também se acredita vir de puls ou pulmentum, um mingau preparado com grão cozido de trigo ou fava. Era o alimento das legiões de César. Em suas expedições, os soldados carregavam apenas a farinha daqueles grãos e acrescentavam água ou leite dos locais onde estivessem.

Na Itália, quando preparada em casa, a polenta assume caráter gregário, familiar. Comida de inverno, é preparada em grande panela de cobre, o paiolo, freqüentemente pendurado na lareira. Marido e mulher, tia solteira e avó viúva, crianças, adolescentes e eventuais parentes, todos ficam em volta do fogo. Observam gulosamente a farinha cair na água, a massa ser mexida sem parar com a colher de madeira. Basta uma pequena distração para formar grumos – uma calamidade difícil de contornar. Cerca de 45 minutos depois de iniciada, a polenta está pronta para ser colocada na “tafferia”, uma tábua redonda, e ajeitada com uma espátula umedecida. A tradição manda fazer uma cruz no centro, antes de fatiar com um cordão. Pode haver sorteio para decidir quem ficará com a crosticina – a casquinha crocante que gruda no fundo e nas paredes do paiolo.

 

 

Fonte: www.italiaoggi.com.br